Em outro dia, eu estava em um grupo de adultos superdotados conversando sobre o sentimento de solidão. Essa ideia ficou perambulando pelos meus pensamentos e coincidiu com o fato de eu estar lendo um livro sobre ser artista e a natureza humana 🔗. A leitura me trouxe novas reflexões sobre o assunto, as quais tentarei organizar neste texto.
O livro apresenta uma hipótese sobre o que é a arte e o que é a natureza humana, tentando conciliar ambas para mostrar que a arte faz parte da essência humana. O autor descontrói diferentes conceitos ao longo dos capítulos. Em cada um deles, aborda um tema diferente para comprovar a tese de que a arte é intrínseca ao ser humano, e não uma atividade alheia a ele. Ele começa a destrinchar essa hipótese explicando que a arte é fruto da inquietude humana, pois faz parte da nossa natureza ser inquieto, estar sempre buscando resolver novos problemas e encontrar novas respostas. Para o autor, se não houver respostas, nossa natureza se define primordialmente por essa inquietude.
Em seguida, o autor analisa outros sentimentos para comprovar o quanto a nossa natureza é fruto desse estado. Ele começa pelo amor, afirmando que este é, na verdade, uma série de inquietudes e que não é finito em si mesmo. O amor existe porque somos inquietos em suprir nossos desejos pela pessoa ou pela coisa amada. É o que ocorre, por exemplo, quando um pai se inquieta em cuidar para que a criança cresça saudável, não se machuque, aprenda bem e não passe por privações. Essa teia de inquietudes é o que compõe o sentimento do amor; é o que movimenta as pessoas a agirem politicamente ou a cuidarem excessivamente de um objeto.
Abro um parêntese para destacar que aqui minha visão diverge um pouco da do autor pois admiro o que João Carvalho 🔗 sempre fala em seu canal: nós amamos pessoas e gostamos de coisas.
O autor também associa a inquietude à felicidade. Ele argumenta que a felicidade não é um sentimento final ou um destino, como fazem crer o senso comum e os contos de fadas. Utilizando a metáfora dos contos de fadas, ele critica a visão da felicidade como o ponto de chegada do "felizes para sempre", algo que não existe na vida real. A felicidade, portanto, não seria um destino, mas um processo. Ele chega a afirmar que ela não é a cura para todos os males, mas sim o tratamento deles. Consiste em resolver cada uma das inquietudes enquanto se busca a própria realização. Assim, para quem tem a música ou a pintura como vocação, a felicidade está no próprio fazer artístico, e o artista torna-se infeliz quando está afastado disso.
Embora o autor fale especificamente do artista, podemos estender esse conceito de arte a outras atividades, como a marcenaria, a programação ou a botânica. Se esse for o seu chamado, a sua inquietude, essa será a sua arte, e a felicidade estará vinculada a ela. Esta é, fundamentalmente, a tese levantada no livro.
A partir disso, passei a refletir se o sentimento de solidão também não seria fruto de uma inquietude. Creio que sim. Pensando longamente sobre qual inquietude seria essa durante uma viagem de ônibus na madrugada, lembrei-me de que somos classificados como seres biopsicossociais, divididos em três camadas: biológica, psicológica e social. Contudo, considero que deveríamos repensar esse termo para "biopsicocultural", uma vez que o aspecto social está estritamente vinculado a todas essas dimensões.
No aspecto biológico, o social se manifesta, por exemplo, no toque de pele entre seres humanos. Quando isso ocorre, o cérebro produz oxitocina 🔗, um hormônio associado às relações interpessoais. Essa produção não acontece quando manipulamos objetos; é desencadeada pelo toque com outra pessoa (e talvez com animais, embora em menor quantidade, algo que ainda pretendo pesquisar). Além disso, possuímos receptores nervosos sob a pele que só são ativados por meio do carinho 🔗. Eles não captam a mensagem se houver um tapa, um movimento brusco ou se a mão ficar parada. Esses neurônios dependem de um movimento gentil e lento — como o gesto para ninar um bebê ou o carinho na pessoa amada. Curiosamente, eles só disparam quando o toque provém de outra pessoa; fazer um carinho em si mesmo não gera a mesma sensação.
No campo psicológico, a dimensão social se manifesta em fenômenos como a pareidolia 🔗, que nos permite enxergar padrões em coisas que não os possuem. Um dos padrões que evoluímos para detectar é o rosto humano. Somos capazes de identificá-lo nos lugares mais improváveis, como nas marcas de um pão queimado, no para-choque de um carro ou em dois pontos e um traço desenhados em uma folha de papel. Trata-se de uma vantagem evolutiva que nos permite diferenciar nossa espécie de outras, as quais se identificam pelo cheiro ou pelos sons. Nós, humanos, desenvolvemos essa habilidade a ponto de até projetar rostos onde eles não existem.
No âmbito cultural, o aspecto social é fortemente presente. Há séculos — senão milênios —, nossa cultura é orientada para a coletividade. Desenvolvemos rituais religiosos que promovem encontros e o hábito de realizar refeições em família e em comunidade, não de forma isolada. Registros históricos mostram isso desde a Antiguidade: na véspera de sua morte, Jesus chegou a celebrar uma refeição comunitária com seus apóstolos. Também nos reunimos socialmente para ir ao teatro, assistir a um show em uma praça, jogar dominó, frequentar um bar com amigos ou para conhecer novas pessoas.
O século XX, apesar de ter trazido inúmeras inovações tecnológicas de comunicação, manteve as experiências coletivas em nossa cultura. Ir ao cinema, ouvir música no rádio com a família ou assistir à televisão na sala continuaram sendo práticas compartilhadas, em parte porque esses aparelhos eram caros. No entanto, o final daquele século iniciou uma transição. Passou a ser culturalmente aceito, sobretudo nas classes média alta e alta, que cada quarto tivesse sua própria televisão. Passou-se a ouvir rádio sozinho no carro, e surgiram os dispositivos portáteis de áudio, como o walkman, o discman e, posteriormente, o iPod, provocando uma enorme mudança cultural.
É impossível discutir essa transformação cultural sem abordar a política, pois ela reflete a individualização do consumo. Em vez de manter o consumo como um ato social e coletivo, desfrutado pela família ou pela comunidade, o mercado buscou individualizá-lo para maximizar o lucro. Esse movimento deriva de uma mentalidade neoliberal que promove o indivíduo como único responsável por seu sucesso, ganhos financeiros, felicidade e lucro, ignorando a dimensão social. Quando substituímos a vitrola da casa — onde todos ouviam o mesmo disco, mesmo que não gostassem da música — pela experiência sob demanda dos streamings (em que se acessa individualmente o que agrada, isolado em fones de ouvido), criamos um ambiente propício à solidão.
As experiências culturais coletivas estão sendo mitigadas: a ida ao cinema é substituída pelo isolamento doméstico, e o ato de admirar a pintura de um artista dá lugar à geração de imagens por comandos de inteligência artificial, gerando visuais sob demanda que quase sempre serão do agrado do usuário. Com isso, perde-se até mesmo a oportunidade de conexão com o outro artista, o que intensifica o sentimento de solidão.
Chegamos, enfim, à angústia do ser solitário. Qual é a sua inquietude? É a inquietude de não satisfazer a nossa natureza social. Obviamente, isso se manifesta de forma distinta em cada pessoa. Essa deficiência social pode ser causada por um ambiente familiar complicado, por um contexto de trabalho isolante ou mesmo pela frequência a uma comunidade religiosa com cujos valores e práticas o indivíduo não se identifica. Toda deficiência em nosso caráter social — que é inerente à condição humana — gera essa inquietude.
Considerando a premissa do livro de que a felicidade é o tratamento para as nossas inquietudes, o tratamento para a solidão consiste em reaver o contato social. Muitas vezes, em razão do isolamento extremo estimulado pelo contexto neoliberal, sentimo-nos sós mesmo tendo pessoas ao lado. São comuns os relatos de lares onde o pai, a mãe e o filho interagem individualmente com seus respectivos celulares, sem conversar entre si. Apesar de estarem fisicamente acompanhados, são induzidos ao isolamento.
Sendo a solidão uma inquietude, e dado que o autor vincula a arte a esse estado humano, é muito provável que possamos tratar essa condição por meio da arte. Isso não se limita a consumi-la, mas a fazer uma arte que conecte as pessoas. Pode ser caracterizar-se como palhaço para fazer as pessoas sorrirem na rua, ou tocar violão para os amigos em um churrasco, propondo que desliguem os aparelhos para cantarem juntos. Precisamos encontrar uma saída para a solidão, e ela provavelmente reside nas artes.
Dessa busca por conexão também podem emergir obras belíssimas. Alguém pode buscar esse vínculo por meio de uma instituição religiosa e criar arte sacra, ou utilizar a própria arte para expressar o isolamento, como fez Vincent van Gogh, que traduziu sua solidão em pinturas magníficas. Isaac Newton, quando propôs a lei da gravitação universal e o cálculo diferencial e integral, encontrava-se isolado na universidade devido a uma pandemia que impôs quarentena a Londres. Foi nesse isolamento com seus pensamentos que ele desenvolveu suas teorias, pois a solidão permitiu-lhe situar-se no presente e refletir sobre o que observava ao redor.
Portanto, resolver a solidão exige estar presente no próprio ambiente e disponível para as pessoas próximas. A solidão não se soluciona assistindo a vídeos no YouTube, navegando no Instagram ou ouvindo música sozinho, sem que haja interação real. É indispensável a interação pessoal, motivada pelo toque, pelo olhar e pela experiência coletiva do fazer artístico, qualquer que seja a sua arte.
Este texto não é um manifesto contrário às tecnologias de informação e comunicação. São inegáveis os avanços que elas trouxeram, como a possibilidade de conhecer pessoas distantes, viajar para encontrá-las, aprender sobre novas culturas e ampliar horizontes. No entanto, elas não substituem a experiência coletiva e o convívio social comum.
A solidão, portanto, não é um mal em si ou um sentimento do qual devamos fugir, mas a manifestação de uma inquietude decorrente de nossa conexão social insatisfeita. Convoco os leitores a praticarem a sua arte e a compartilharem-na no coletivo, na comunidade. Não com o propósito de buscar aplausos, engajamento ou dinheiro, mas para restabelecer os vínculos comunitários. Esse parece ser o verdadeiro propósito da solidão no ser humano enquanto ser artista.
